As palavras escapam e fogem como se tivessem vida própria, são guiadas pelo ar quente que lhe sobe às entranhas e dilaceram toda sua doçura e beleza. Um imenso espaço cinzento se abre ao olhar o outro, linhas tortuosas, perdidas. Tudo que encontra é vazio, denso e oculto. A inquietação da menina a faz continuar sua busca paranóica por uma resposta a sua dor... “Devolva minha alma!”, ela pensa. Enquanto isso, ele se desfaz numa nuvem de fumaça e some como alguém que não habita mais em si mesmo. Sacia-se de uma liberdade confusa, experimentando sensações, sabores, toques e cheiros efêmeros. Para ela só sobrou o aspecto gélido de um defunto.
O vento sopra trazendo mudanças incalculáveis, um novo tempo sem perfume nem cor. Está aprisionada em suas lembranças, estagnada em um lugar onde os pássaros verdes passeavam em bando, onde uma árvore ousou brotar no meio de uma avenida; um lugar onde era possível fazer com que a chuva caísse somente sobre eles enquanto atravessavam a rua. O idílio perfeito, com laranjeiras e personagens de contos de fadas. Olhar nos olhos dele lhe bastava para provocar a terna sensação de descobrir a mais pura fonte em meio a uma lama esparsa. Uma síntese de sentimentos e desejos intensos, tão profundos que cada vez que fitavam os olhos um do outro sobravam lágrimas.
Ele dá rumo a sua vida de acordo com seu único e equivocado desejo de deixá-la voar. Dor... O desespero é amargo e mistura amor e mágoa. Ela não suporta, e inquieta vomita sua indignação, lhe diz palavras duras, na tentativa de fazê-lo despertar, em vão.
O céu nublado esconde o brilho da lua em suas noites de solidão. A noite recua, assim como sua esperança, e ela permanece reclusa em sua descrença. “Devolva a minha alma!” Ela suplica mais uma vez, grita e não se faz ouvir... Insiste, derrama mais palavras e não se faz ver... Luta, ama e não se faz sentir. Ausência! Falta da completude dos que se tornaram um só. Sem conversas, sem poesia, sem músicas, sem mar. Tudo foi desfeito, desmanchou-se com a fragilidade de uma flor que espalha suas pétalas ao vento, porém, sem jamais apagar o seu perfume.